Fim dos hospitais de custódia pode colocar maníacos sexuais e assassinos nas ruas de SC

Fim dos manicômios judiciários: Criminosos perigosos, incluindo o Esquartejador de Videira, podem ser soltos em breve, gerando medo e insegurança na sociedade catarinense

Fim dos hospitais de custódia pode colocar maníacos sexuais e assassinos nas ruas de SC

Divulgação

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O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) ingressou com um novo pedido de concessão de liminar para evitar o fechamento do Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico (HCTP). O pedido foi feito pela 6ª Promotoria de Justiça da Capital ao Órgão Especial do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC). 

A Promotoria de Justiça, com atuação na área de execução penal, fez o pedido com base em um novo precedente do Supremo Tribunal Federal (STF) que autorizou o Estado do Rio de Janeiro a manter a sua instituição em funcionamento.

O titular da 6ª PJ da Capital, Promotor de Justiça Rodrigo Cunha Amorim, relata que houve o ingresso de mandado de segurança junto ao TJSC contra portaria do Juízo de Execução Penal da Comarca da Capital que interditou parcialmente o HCTP, proibindo o ingresso de novos pacientes, em cumprimento à Resolução n. 497/03 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O regulamento determinou, ainda, o fechamento desse tipo de instituição em todo o país no final do mês de agosto. 

Porém o trâmite do mandado de segurança acabou suspenso em razão da instauração de incidente de inconstitucionalidade perante o Órgão Especial do Tribunal de Justiça, o qual entendeu que a ação de inconstitucionalidade que tramitava no STF precisaria ser julgada em primeiro lugar. Agora, com a decisão favorável do STF em prol da instituição carioca, Amorim retomou o pedido.

"O fechamento do HCTP no presente momento traz risco de dano irreparável ao tratamento de pessoas portadoras de transtornos mentais em conflito com a lei penal e à própria sociedade, por falta de estrutura na rede pública de atendimento. Os hospitais gerais, CAPs e Serviços de Residencial Terapêutico não possuem capacidade para absorver o tratamento do referido público. Há pacientes de grande periculosidade que necessitam de local adequado e estruturado para seu tratamento e recuperação, o que não existe atualmente na Rede de Atenção Psicossocial", relata.

O Promotor de Justiça alerta que, em primeiro lugar, é necessária uma ação prévia estruturante em relação aos instrumentos de tratamento da saúde mental para depois se pensar no possível fechamento do Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico. Do contrário, segundo ele, os pacientes com transtorno mental em conflito com a lei penal serão colocados à sua própria sorte para o tratamento, bem como a sociedade catarinense será posta em risco, já que, nesse momento, seria inviável a execução de medidas de segurança em casos graves sem o HCTP.

Entenda o caso

O Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico abriga pessoas que cometeram algum crime, mas foram diagnosticadas com doenças mentais e, portanto, são consideradas inimputáveis. Santa Catarina hoje dispõe de uma unidade, em Florianópolis, dentro do Complexo Penitenciário da Agronômica.

Devido a uma resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em cumprimento à Lei Antimanicomial, a portaria do Juízo de Execução Penal da Capital fez com que o HCTP parasse de receber novos pacientes em fevereiro deste ano. A resolução CNJ determina, ainda, que essas instituições encerrem suas atividades até o dia 28 de agosto. A partir dessa data, os internos deverão ser liberados para receber atendimento domiciliar, na rede de atenção psicossocial (RAPs).

O MPSC questiona judicialmente a decisão do CNJ em razão da incapacidade da Rede de Atendimento Psicossocial de absorver esse público, especialmente pacientes com grau elevado de periculosidade.

O caso do Esquartejador de Videira, protagonizado por Irineu Carlos Nórdio, é um dos mais emblemáticos e chocantes na história criminal de Santa Catarina. Em 2002, Irineu, então com 27 anos, confessou ser o autor de assassinatos brutais que envolveram o desmembramento de suas vítimas. Ele foi condenado inicialmente a 10 anos e 10 meses de prisão pelo homicídio de Juvenira Moraes de Oliveira, uma cozinheira de 36 anos que trabalhava na boate Talismã. Irineu desmembrou o corpo de Juvenira e jogou as partes no Rio Veloso, em Videira. Entenda:

Em 1999, a cozinheira Juvenira Moraes de Oliveira desapareceu misteriosamente, e em 2000, a operária Erci Maria Mendes, a "Lebrinha", foi vista pela última vez na garupa da moto de Irineu. Dias depois, partes do corpo de Erci foram encontradas no rio Veloso. Irineu foi preso pelo assassinato de Valderes Amarante Xavier, em outubro de 2000, levando à descoberta dos horríveis crimes contra Juvenira e Erci.

Irineu confessou ter atraído Juvenira para sua casa, onde a matou e esquartejou, jogando suas partes no rio. Erci sofreu destino semelhante, com seu corpo desmembrado por um serrote e lançado na água. A brutalidade não parou por aí: em 2002, já condenado, Irineu matou violentamente seu colega de cela, Nelson Ferreira de Araújo, com 165 estocadas e mutilações. No dia seguinte, pegou o cadáver da já dilacerada vítima, cortou a ponta de sua língua e jogou-a no vaso sanitário.

Alesc debate fechamento do Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico

Resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em cumprimento à Lei Antimanicomial, deu prazo até o dia 28 de agosto. A partir dessa data, os internos deverão ser liberados para receber atendimento domiciliar, na rede hospitalar e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs).

O assunto foi tema de debate na Assembleia Legislativa durante reunião conjunta das comissões de Saúde, Segurança Pública e Direitos Humanos, nesta terça-feira (09). Participaram representantes do governo do Estado, do Poder Judiciário, do Conselho Regional de Medicina, Instituto de Psiquiatria de Santa Catarina (IPQ/SC), entre outros.

No início do encontro, o proponente do debate, deputado Dr. Vicente Caropreso (PSDB), apresentou um histórico sobre a Lei 10.216/2001, conhecida como Lei Antimanicomial, que baseou a decisão do CNJ para o fechamento do HCTP. O parlamentar também citou crimes cometidos no estado que, segundo ele, exemplificam a importância da discussão. Entre eles, ataques a creches. “É nesse contexto que nós temos que avaliar todas as vertentes de situações que vêm se apresentando e que motivaram essa reunião. Um dos principais questionamentos hoje é se o nosso sistema de saúde vai conseguir atender a essas pessoas atualmente internadas.”

A diretora do HCTP de Florianópolis, Danielle Amorim Silva, contou que a unidade iniciou em fevereiro o processo de implementação da resolução do CNJ. Naquele momento, o HCTP tinha 98 internos. “Nós procedemos a desinternação da maior parte deles. Oito retornaram para o sistema prisional e 49 foram desinternados e retornaram para a sociedade. Atualmente, temos 14 pacientes que não têm condições de alta médica. Estamos em discussão com os órgãos responsáveis para que a gente pense e construa para onde essas pessoas serão encaminhadas caso se efetive o fechamento do Hospital de Custódia.”

Danielle também demonstrou preocupação com o regramento do CNJ que permite a liberação dos internos do HCTP sem o exame de cessação de periculosidade. “Eles estão sendo desiternados com relatório biopsicossocial, um documento construído por assistente social, psicólogo e o médico psiquiatra assistente, que não é um perito forense para atestar que aquele paciente não apresenta mais perigo. Atesta somente se tem condição da alta hospitalar”, contestou.

Sobrecarga no sistema de saúde

“O sistema de saúde de Santa Catarina não está preparado para absorver a demanda com o fechamento do Hospital de Custódia, já que parte dos pacientes deverão ser encaminhados para a rede hospitalar geral e para os CAPs, que hoje não têm condições de receber essa demanda”. A opinião é da desembargadora Cinthia Beatriz da Silva Bittencourt Schaefer, que preside o Grupo de Monitoramento e Fiscalização dos Sistemas Prisional e Socioeducativo do Tribunal de Justiça de Santa Catarina.

A desembargadora destacou que o assunto é delicado e complexo porque envolve temas sensíveis para as pessoas. “Trata-se de uma discussão que engloba a saúde mental e o cometimento de crimes. E desde que a resolução do CNJ foi publicada, nós estamos empenhados em cumprir o regramento de forma eficiente e segura para a população.”

O secretário de Estado da Saúde, Diogo Demarchi, compartilha da opinião de que o sistema de saúde não está preparado para atender a demanda. Segundo explicou, os hospitais gerais têm um limite de 15% para leitos psiquiátricos. O Estado tem também o Instituto de Psiquiatria (IPQ) que atende principalmente emergências psiquiátricas. “No final da década de 1980, o IPQ tinha mais de mil leitos psiquiátricos. Hoje, são 185 leitos e 72 pessoas que moram no instituto. Santa Catarina não está totalmente preparada para absorver a demanda do HCTP.”